domingo, 30 de janeiro de 2011

MINHA HISTÓRIA

Minha História Chico Buarque

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente


Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto


Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré


Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor


Minha história e esse nome que ainda hoje carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus


Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

AS VITRINES

As Vitrines

Chico Buarque

Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
Dá tua mão
Olha pra mim
Não faz assim
Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão,
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir...

Já te vejo brincando, gostando de ser,
Tua sombra a se multiplicar...
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria,
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia,
Abrindo um salão
Passas em exposição,
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão...